segunda-feira, 12 de abril de 2010

Do peito à laringe

Hoje acordei sentindo tudo aquilo que não se vê quando se olha.
O coração estava perto da garganta, o que decerto prenderia um pouco a voz.

Me apaixonei três vezes.
De duas não sei o nome; da outra não tenho fé.
Quem sabe essa uma volta noutro escrito.
Clamei por que ouvissem o que eu pensava.
E por que não falava? Se mexia a língua quando pensava, era dizível!
É que a fala tem uma carga.
Quem fala quer algo em troca; assim se pensa; e assim o é.
Esse é o problema do dizer. É voluntário. Só fala quem quer.
Diferente de pensar, que o faz quem apenas sente, sem nada querer.

Sente, pensa, quer, fala. Já não é...
Pensava mil coisas.
Podia sorrir, se ouvisse o pensar. Expresso estaria; e assim ficaria.
Mas sem conhecer, se ouvisse o falar, não ia gostar.
Dizer “te acho linda”, sem fala ou escrita. Eis um desafio.

Quanto mais claro, mais longe.
Quanto mais dito, mais torto.
Quanto mais mudo, mais puro.

Pequenos gestos...
Singelos...
Sutis...
Passam mais fácil do eu sentir pro tu sentir.
Ou volatilizam.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Homenagem póstuma a Ivo Rodrigues (+ 08/04/2010), vocalista e cabeça da banda paranaense "Blindagem".

--------------------------------------
Cheiro do Mato
Composição: Ivo Rodrigues e Paulo Leminski

Quando me lembro
Do cheiro do mato
Da beira da estrada
De comer pinhão
Lembro do amor
De uma árvore
Sem esperar pra ver nascer a flor

E vou seguindo
Caminhando, me espalhando
Levando poeira no meu coração
Eu vou, eu vou
Sem olhar pra trás
Eu quero ir embora antes de parar

No meu caminho
Tenho mais de quatro nortes
Pra iludir uma só morte
Se pensar em me segurar
Lá no meu campo
Nunca tive bandeira
Se preciso dou rasteira
Vou cantar noutro lugar

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Anônimos oprimidos

Desdobra o bilhete, curioso, e o lê em voz alta:
- Blá (seja lá o que for).
- E quem foi que escreveu isso?
- Não sei, senhor, não está assinado.
- Sendo assim, trate de jogá-lo ao fogo.

Questão de ordem

Ir-se-ia acusar de pronto, o autor, logo após as primeiras reações; fossem elas não hostis. Esperando um “huahuaha, olha o que escreveram, quem será que foi?”, fora surpreendido com frases pontuadas por “maldade”, “ofensivo”, “meio foda”, “pode significar várias coisas” (????).
Achou por um momento que havia sido rude, o infeliz do autor, e tentou mostrar que maldade nenhuma havia, independente da fonte.
Por fim, vejo que lado certo não há, apenas tatos diferentes. Não ignoremos a variabilidade.
Não foi a primeira e certamente nem a última vez que esse que vos fala dá risada e, depois que abre os olhos, fechados e vermelhos de tanto rir, se depara com rostos sérios, lábios apertados, olhares pro chão, coçando a cabeça ou, o que é pior, balançando-a como quem diz “não” (essa cena, por si, já é engraçada).

Sim, é meio fútil o motivo do debate, mas é também saudável e divertido.
É pondo tudo às claras (e identificando-se , ainda que tarde) que se melhora o convívio.

Direito de resposta?

Todos querem poder falar e fazer.
Responder o que lhe foi dito ou feito.
Só resta lembrar que para se dirigir a palavra a alguém, é preciso saber a quem se fala.
Não há como responder a um anônimo.

Deve-se ter clareza, também, que as palavras são compreendidas diferentemente,
de acordo com quem as profere.
Certamente uma piada de um conhecido será avaliada de forma amigável.
E não há nenhum anônimo em um círculo de amigos.

O humor não possui forma. Ele não é estático.
Sua deformidade é inerente a sua natureza.
Assim como as pessoas. Cada um deforme do seu jeito.
Que eu seja um sem graça caso o humor tenha uma forma definida.
E que o sentimentalismo esteja sempre presente.
Forte, de um jeito ou de outro.

E quanto àquele que se pregou uma peça enquanto dormia,
podemos ter certeza, o desejo de retribui-la, existirá.
E nesse caso o anonimato protegerá o autor da brincadeira.
Isso é uma arma, uma tática.
Que alguém se acuse quando o indivíduo acordar.

Para que se esconder?

O anonimato não tira a graça, a distorce.

Direito de resposta

O anonimato não deveria tirar a graça.
Pensa quantas piadas são feitas às escondidas. Num exemplo meio tosco, pra ser simples, um sujeito coloca uma aranha de mentira na mochila do outro. Mesmo sem saber quem foi, a primeira reação do indivíduo ao se dar conta da brincadeira é achar graça, e não tirar satisfação de quem haja sido pra só depois dar risada. E aquela de aprontar alguma com o colega que dorme no ônibus durante uma excursão? Anonimato outra vez. E a graça é percebida a despeito de se descobrir o autor. Humor negro? Talvez, muito de leve. Afinal, não foi com a desgraça alheia, mas com um romantismo meigo.
Desavisado estava eu que sentimentalismos fortes podem deformar o senso de humor, uma vez que outra.
Coisa de gente normal, como eu.

terça-feira, 6 de abril de 2010

As partes

"A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam"
A cabeça sonha com os pés nos sentimentos
Os sentimentos brotam de não sei onde, um não sei quando e as vezes de um não sei porquê.
O não sei onde torna-se aqui, o quando torna-se o agora e o infinito
E o porquê?
É a razão escrava da paixão que não se limita mais a entender...e tudo se resume a sentir.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Parti

Meu coração em dois.

domingo, 4 de abril de 2010

Noite das caminhadas brownianas

Indo
Descem do bus, param, olham pros lados, sobem uma quadra, dobram, sobem duas, voltam uma, dobram, sobem três, voltam quatro, pegam o bus e voltam pra ir direto ao bar.

Voltando
Dois passos pra lá, quatro pra cá, dois pra frente, um pra trás, param, três pra frente, tropeça, um pra lá, três pra cá e por aí vão até chegar à baia.

Em pequena e média escala, o aleatório ruma os caminhos da noite tal como o faz em grande escala, na vida.

A Idade de Ser Feliz - Mário Quintana


Existe somente uma idade para a gente ser feliz,

somente uma época na vida de cada pessoa

em que é possível sonhar e fazer planos

e ter energia bastante para realizá-las

a despeito de todas as dificuldades e obstáculos.

Uma só idade para a gente se encantar com a vida

e viver apaixonadamente

e desfrutar tudo com toda intensidade

sem medo, nem culpa de sentir prazer.

Fase dourada em que a gente pode criar

e recriar a vida,

a nossa própria imagem e semelhança

e vestir-se com todas as cores

e experimentar todos os sabores

e entregar-se a todos os amores

sem preconceito nem pudor.

Tempo de entusiasmo e coragem

em que todo o desafio é mais um convite à luta

que a gente enfrenta com toda disposição

de tentar algo NOVO, de NOVO e de NOVO,

e quantas vezes for preciso.

Essa idade tão fugaz na vida da gente

chama-se PRESENTE

e tem a duração do instante que passa.

Deixa

Não deixa eu sozinho.
Não faz com que eu seja tão pouquinho.
Quero ser tanto.
Não mais que máximo, muito menos que mínimo.
Não deixa eu ser perfeito, nem ao menos tentar,
Ser esse rarefeito, que está, mas não está.
Que tenta ser, mas não é.
Quero ficar e pronto.
Com a realidade, nem mais nem menos,.
Só a felicidade, e ponto.

Estampa sessentista

Quero ser uma bolinha branca.
Em um fundo vermelho.
Perto de várias outras bolinhas brancas.
Mas eu quero ser especial.
Não qualquer bolinha, mas uma que possui o status daquela Bolinha.
Ela faz a difrença.
No meio de tantas outras, ela é especial.
Não é diferente, maior, melhor ou pior.
É especial, única.
Assim espera que seja.
É o desejo de uma bolinha.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

“They should have sent a poet”

Fala memorável do filme “Contato” que, aliás, tem uma história bastante parecida em alguns aspectos com a do nosso querido e presente LHC.

Seria bom se algum poeta com tato (sem trocadilhos com o nome do filme) para a ciência tirasse proveito do “milagroso” bóson de Higgs;
se de fato o descobrirem;
e se não nos explodirem.

Acerca da alienação voluntária

Minha mente não é uma esponja.
Prefiro pensar muito sobre pouco a pensar pouco sobre muito.
Não corro atrás das notícias; e de vez em quando até corro delas.
Se perdem a cabeça, eu analiso. Se me sacodem, eu dou risada.
Observo o observador e penso sobre o pensamento.
Reconheci a tempo, contudo, que fazer vem antes de ser (pensar), tanto quanto ser vem antes de ter. Essa é a ordem.
E sobre a matéria desses fazer e ser? Seguem a paixão por princípio;
a razão por base e o conhecimento por fim.
A utilidade como subproduto. Incerto, esporádico, vale dizer.
Conhecimento do quê? Do que me atrai, já falei.
E o que me atrai não sou eu quem dita. É fisiológico.
Assim, negamos o livre-arbítrio, falando sobre vontade própria.
Fazemos o que queremos, mas não escolhemos o que queremos.
E aquele que tenta fazer o que não lhe atrai, faz merda.

A beleza do inconveniente

Madrugada. Segunda-feira. Amanhã cedo trabalho.
Ligo o rádio e abro uma garrafa de vinho pra pensar na vida.
E a vizinhança dorme...

Supermercado. Fila grande. As pessoas têm pressa.
Dou um chocolate à linda moça do caixa e convido-a para um café.
E a fila espera...

Noite na praia. Garoa e vento gelado. Sugere-se jogar baralho.
Caminho até a areia deserta pra sentir o vento e ouvir o mar.
E eles em volta da mesa...

Oitenta anos. O mundo é estranho. O corpo é fraco.
Convido-te pra tomar vinho na beira da praia sob a luz da lua.
E as pessoas se deitam e morrem...