terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Já disse que as velas revelam texturas
que as formas das formas se mostram

mas a coisa mais linda que uma luz de vela faz ver
é o escuro.

...

e o silêncio, os barulhinhos...
é como acordar e apreciar o dormir.

ver as coisas noutras coisas
e não num mundo de si mesmas.
Enquadro a lua nos galhos
pra ver se faço um relógio
que me livre da noite aflição

Esfrego a lua nos olhos
pra ver se fala comigo

Trago o sol e cuspo nuvens
sou o esculacho de um deus sem noção.

sábado, 14 de dezembro de 2013

A gente é cheio de coisa
Que ora chama de problema, de mania, situação mal resolvida
De certeza, preconceito, medo
Coisa desse tipo, que é tudo na verdade o que se é
Isso do que a gente é cheio mas que se não fosse não teria o que se encher.

Receita médica pra alma

Tirar o chinelo às vezes pra sentir um contraste na vida
Pode ser na grama fria, na calçada quente, no chão sujo desse coletivo ou só no vento
Pode ser também na sola do outro pé.

Suor

manifestação ambígua

Tratado de velosofia

Cera derretida:
poça onde se afoga a chama da apegada

Deixa
rolar.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A lâmina d'água na bacia da pia

revelada apenas pela amenidade
   vela
           as penas      da      idade.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Caliandra

Vestia as orelhas e o pulso
iluminava-se de jazz...


Vestia as orelhas e o pulso
e o pulso
(o meu pulso
o teu pulso)
ocupava todo o espaço que não havia entre nós.

.
.
.

Levantou a pedra, pra saber se tinha que ser levantada
pontuou a frase com uma vírgula de caliandra
mais ou menos no lugar onde, pela primeira vez, a viu pela segunda vez.

E o rapaz agora era menino
e a menina, nesse dia, era mulher.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A vida segue...
    vida segue, vida
           segue, vida
           Segue!

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Só lhe saía uma expressão verbal de espanto
o resto todo era sentido
ondas de arrepio
e peso
grato por essa verdade se mostrar tão nua
o coração esbofeteando o estômago e a garganta
doloridamente e prazerosamente entorpecido por uma certeza.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Adendo a Kundera

A vida é um esboço sem quadro
Um rascunho de nada
E à tinta.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Tá errado de tão certo

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A história de Seu Bestov

Era tão besta que de tanto ficar se dizendo o "the best of" qualquer coisa não notou a sutileza do deboche quando lhe passaram a chamar de Bestov.

Um dia resolveu registrar no cartório como novo nome pra si próprio esse "Bestov". E Bestov qualquer coisa era mesmo o melhor em tudo. Mas em bestialidade era mais.

E esses foram os fatos mais memoráveis da vida de Seu Bestov, que as pessoas que o amavam (um amigo, etc.) tinham pra contar. É uma história tão besta que marcou um estilo novo de literatura que jamais um escritor teve a ousadia de usar. O das histórias que começam sem serem muito atraentes, mas quando chegam ao fim você se dá conta que o melhor tinha sido aquilo mesmo.

Limite tendendo a zero ou o segredo pra felicidade eterna

Começou a gostar de fazer um intervalo entre uma coisa e outra. Pra notar bem cada uma, sentir elas, pensar sobre elas. Pensar sobre o sentimento e sentir o pensamento que cada fim de fim e começo de começo traziam.

Um dia ele disse "chegou a hora daquele intervalo, mas antes vou dar uma parada e ficar sentado notando bem cada coisa e sentindo e pensando...". E fez um intervalo entre a coisa e o intervalo.

E foi assim sucessivamente, notando cada transição, cada fim, cada começo, fazendo intervalos entre um intervalo e outro. Formando um fractal pra dentro do tempo, que ele degustou, engoliu e digeriu até o instante.

Mensageiro da morte

Aquele que há pouco ascendia
transluz a carcaça cor-dente-de-porco

Revela a apagada iminente
o não mais suficiente
o espírito pouco.